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Papo de Veterinária
Nov. 4, 2026

O que a faculdade de Medicina Veterinária consegue — e não consegue — ensinar para o mercado

O que a faculdade de Medicina Veterinária consegue — e não consegue — ensinar para o mercado

A graduação precisa formar um médico-veterinário capaz de atuar em uma profissão extremamente ampla, mas o mercado também exige comunicação, liderança, capacidade de adaptação e resolução de problemas. Para Rana Rached, entender os limites da universidade é parte importante da construção de uma carreira profissional.

Cinco anos parecem muito tempo.

Até tentar colocar dentro deles anatomia, fisiologia, patologia, microbiologia, imunologia, epidemiologia, farmacologia, clínica, cirurgia, reprodução, produção animal, inspeção de alimentos, saúde pública, bem-estar animal, legislação e tantas outras áreas que compõem a formação de um médico-veterinário.

Então surgem outras demandas.

O profissional também precisa saber se comunicar. Trabalhar em equipe. Liderar pessoas. Administrar conflitos. Lidar com clientes. Entender gestão. Tomar decisões. Usar novas tecnologias. Interpretar informações. Adaptar-se às mudanças do mercado.

E inevitavelmente aparece uma pergunta: a faculdade deveria ensinar tudo isso?

A médica-veterinária e coordenadora de curso Rana Rached discutiu essa questão durante sua participação no Papo de Veterinária. Sua experiência dos dois lados — como profissional e como docente envolvida diretamente na formação de novos médicos-veterinários — ajuda a colocar o problema em perspectiva.

Talvez a questão não seja simplesmente perguntar o que está faltando no currículo.

Talvez seja entender qual é o papel da graduação e qual é a responsabilidade do estudante na construção do profissional que pretende se tornar.

O mercado muda mais rápido que o currículo

Uma das dificuldades de qualquer curso universitário é relativamente simples de compreender: mudar uma formação inteira leva tempo.

O mercado não espera.

Novas tecnologias aparecem, formas de trabalho são modificadas, ferramentas digitais entram na rotina e conhecimentos que antes pareciam avançados tornam-se cotidianos.

Rana usa sua própria experiência para ilustrar essa velocidade. Tecnologias que praticamente não faziam parte de sua formação passaram a integrar a rotina profissional e acadêmica. Hoje, a discussão já inclui o uso de inteligência artificial inclusive na produção científica — e, necessariamente, os limites éticos desse uso.

Essa velocidade cria uma expectativa difícil de atender: imaginar que o currículo conseguirá antecipar cada competência que um estudante precisará quando chegar ao mercado.

Não conseguirá.

Isso não torna a graduação obsoleta.

Torna ainda mais importante definir o que ela precisa ensinar para que o profissional continue aprendendo depois dela.

Conhecimento não é apenas aquilo que conseguimos memorizar

Durante muito tempo, formação de qualidade foi associada à quantidade de informações que um estudante conseguia dominar.

Detalhes anatômicos, características morfológicas, classificações e inúmeras outras informações precisavam estar disponíveis na memória porque consultá-las nem sempre era fácil.

Essa realidade mudou.

Hoje, boa parte da informação técnica pode ser encontrada rapidamente. Para Rana, isso modifica também aquilo que deve receber maior atenção durante a formação.

Não basta localizar uma informação.

É preciso saber onde procurar, como interpretá-la, como relacioná-la a outros conhecimentos e como aplicá-la diante de um problema real.

A mudança parece pequena, mas é profunda.

O estudante deixa de ser apenas alguém que acumula informações e precisa tornar-se alguém capaz de raciocinar com elas.

Isso não significa abandonar a teoria. Existem conteúdos que só podem ser compreendidos quando existe uma base teórica consistente.

O desafio é outro: diferenciar aquilo que precisa fazer parte da formação fundamental daquilo que pode ser consultado quando necessário.

Primeiro aprendemos as “caixinhas”. Depois precisamos misturá-las

Outra reflexão interessante da conversa diz respeito à maneira como o conhecimento é organizado durante a graduação.

Tradicionalmente, o estudante aprende a Medicina Veterinária em disciplinas.

Anatomia fica em uma caixa. Fisiologia em outra. Microbiologia em outra. Epidemiologia em outra.

Essa separação é útil principalmente no início da formação, quando é preciso construir fundamentos.

O problema aparece quando o estudante não consegue mais juntar as caixas.

Um paciente, uma propriedade rural, uma indústria ou um problema de saúde pública não chegam ao médico-veterinário organizados por disciplina.

A realidade mistura tudo.

É por isso que, na visão de Rana, à medida que o curso avança, os conteúdos precisam conversar cada vez mais entre si.

O estudante que aprendeu epidemiologia precisa perceber sua aplicação nas doenças infecciosas, parasitárias, zoonoses e situações clínicas. O conhecimento deixa de ser um fim em si mesmo e passa a funcionar como parte de um raciocínio maior.

Formar um profissional é justamente ajudá-lo a chegar a esse ponto.

A faculdade não consegue oferecer toda a profundidade de todas as áreas

Existe ainda uma dificuldade própria da Medicina Veterinária: a profissão é enorme.

Um estudante pode desejar trabalhar exclusivamente com clínica de pequenos animais. Outro pretende seguir carreira com bovinos. Outro descobre a inspeção de alimentos. Há quem queira pesquisa, patologia, animais selvagens, laboratório, indústria ou tantas outras possibilidades.

Todos, entretanto, precisam compartilhar uma formação profissional básica.

Isso impõe limites inevitáveis.

Uma disciplina de graduação não consegue oferecer toda a profundidade do conhecimento existente em determinada especialidade.

Naquele momento, para o aluno, pode parecer que todo o universo da área cabe nas aulas recebidas durante um semestre.

Depois da formação, fica evidente que aquela disciplina apresentou apenas uma parte de um campo muito maior.

E isso tem uma consequência importante: ter cursado determinado conteúdo não significa estar plenamente preparado para atuar profissionalmente naquela área.

A graduação fornece a base.

Estágio, experiência, estudo continuado e formação complementar constroem a profundidade.

Por isso o estágio é tão importante

Rana relata que uma mudança de perspectiva aconteceu quando discutia a organização da própria graduação em Medicina Veterinária.

Inicialmente, enxergava com resistência a possibilidade de períodos com menor carga de aulas. Até que uma colega levantou outra questão: quanto tempo, durante sua própria faculdade, havia sido efetivamente dedicado à experiência prática na área em que desejava atuar?

Pouco.

As oportunidades concentravam-se principalmente nas férias.

Ter períodos disponíveis para estágio ao longo do curso pode, portanto, representar algo extremamente valioso.

O estágio não serve apenas para colocar em prática aquilo que foi ensinado.

Ele também permite descobrir:

“É realmente isso que eu quero fazer?”

Essa pergunta pode economizar anos de uma escolha profissional baseada apenas na imagem que o estudante criou sobre determinada área.

Tirar boas notas não basta para construir uma carreira

Outro ponto da conversa toca em uma insegurança comum entre estudantes.

Durante a faculdade, é fácil transformar desempenho acadêmico em uma espécie de previsão do futuro profissional.

Quem obtém as maiores notas seria naturalmente quem terá mais sucesso.

Quem enfrenta dificuldades em determinadas disciplinas estaria em desvantagem permanente.

O mercado, porém, avalia um conjunto muito mais amplo de características.

O conhecimento técnico é indispensável. Rana é enfática nesse aspecto.

Mas as empresas também precisam de pessoas que consigam se comunicar, ouvir, trabalhar em equipe, enfrentar frustrações, exercer liderança e resolver problemas.

Um profissional pode dominar tecnicamente determinado assunto e ainda assim encontrar enormes dificuldades se não conseguir trabalhar com outras pessoas.

E Medicina Veterinária é uma profissão profundamente dependente de relações humanas, mesmo quando o trabalho não ocorre diretamente com clientes.

O trabalho em grupo que irrita hoje pode estar ensinando alguma coisa

Quase todo estudante conhece a situação.

O professor solicita um trabalho em grupo.

Uma pessoa não participa. Outra desaparece. Alguém acaba fazendo mais que os demais. Surge o conflito e, finalmente, a reclamação:

“Professor, fulano não está fazendo a parte dele.”

Para Rana, esse tipo de situação também pode ser parte da formação.

Porque o “fulano” não desaparecerá depois da formatura.

Ele poderá aparecer dentro de uma equipe, de um hospital, de uma empresa ou de qualquer outro ambiente profissional.

E aí não existirá um professor para reorganizar o grupo.

Será necessário conversar, negociar, liderar, distribuir tarefas, reconhecer as habilidades das pessoas e encontrar maneiras de fazer a equipe funcionar.

Isso não significa aceitar passivamente que alguém não cumpra suas responsabilidades.

Significa compreender que administrar relações também é uma competência profissional.

Comunicação talvez seja uma das maiores lacunas

Quando questionada sobre aquilo que o mercado valoriza, Rana coloca a comunicação entre os pontos centrais.

Não basta saber.

É preciso conseguir se fazer entender.

Em uma indústria, por exemplo, o médico-veterinário pode conversar com pessoas de diferentes níveis de formação e diferentes posições hierárquicas.

A explicação dada a um diretor não necessariamente será a mesma utilizada com alguém que executa diretamente uma atividade na linha de produção.

O conteúdo técnico precisa permanecer correto.

A linguagem precisa mudar.

Esse princípio vale para praticamente todas as áreas da profissão.

O melhor conhecimento do mundo tem pouca utilidade quando o profissional não consegue comunicá-lo.

Saber receber um “não” também é competência profissional

Na experiência relatada por Rana, empresas têm apontado outra dificuldade entre jovens profissionais: lidar com frustrações.

O estudante passa anos sendo preparado para responder corretamente às questões técnicas.

O ambiente profissional, porém, apresenta problemas que não possuem resposta no final do livro.

Projetos são recusados.

Ideias não são aceitas.

Colegas discordam.

Recursos são limitados.

Pessoas cometem erros.

Planos precisam mudar.

E alguém terá de continuar trabalhando depois disso.

Capacidade de adaptação, equilíbrio diante de dificuldades e disposição para buscar alternativas passam a ter peso semelhante ao conhecimento que permitiu identificar o problema.

Apontar o erro é apenas metade do trabalho

Esse talvez seja um dos ensinamentos mais aplicáveis da entrevista.

Dentro da universidade, muitas vezes aprendemos a reconhecer aquilo que está errado.

No mercado, isso não basta.

Se determinada prática não pode continuar, alguém precisará responder à pergunta seguinte:

Então, como fazemos?

Rana resume bem essa diferença ao afirmar que apontar o problema é relativamente fácil. O profissional que se diferencia é aquele que consegue propor uma solução.

Isso exige conhecimento técnico, evidentemente.

Mas exige também criatividade, visão sistêmica, capacidade de negociação e compreensão da realidade na qual aquela solução será implementada.

O melhor procedimento no papel nem sempre é o procedimento possível naquele contexto.

O profissional precisa saber construir o caminho entre ambos.

Nem todo mundo precisa ser excelente em tudo

Uma profissão tão ampla também cria outra armadilha.

O estudante pode imaginar que precisa apresentar desempenho excepcional em todas as áreas.

Rana questiona essa expectativa.

Se uma pessoa demonstra habilidade especialmente forte em determinado campo, talvez faça mais sentido desenvolver ainda mais esse potencial do que tentar transformá-la em excelente justamente naquilo em que possui menor afinidade.

Isso não significa negligenciar a formação geral.

Um médico-veterinário precisa alcançar as competências necessárias ao exercício da profissão.

Mas formação geral não significa que todos sairão da universidade com os mesmos talentos.

E talvez nem devessem.

O mercado também precisa de profissionais diferentes.

Mas isso não significa que existam disciplinas inúteis

Se Rana pudesse conversar com a estudante que foi um dia, um de seus conselhos seria justamente não desprezar disciplinas simplesmente porque elas parecem distantes da carreira pretendida.

Nem todo conteúdo será utilizado diretamente.

Ainda assim, determinados conhecimentos ajudam a construir maneiras de pensar.

Uma disciplina pode participar da formação do raciocínio mesmo quando seu conteúdo específico não será aplicado diariamente anos depois.

Na Medicina Veterinária, isso ganha ainda mais importância porque áreas aparentemente distantes frequentemente se encontram.

Saúde animal conversa com saúde pública. Epidemiologia conversa com clínica. Produção conversa com alimentos. Microbiologia atravessa diversas áreas.

Às vezes, a utilidade de uma disciplina só aparece muito depois da prova final.

Então, de quem é a responsabilidade de preparar o profissional para o mercado?

Da faculdade?

Do estudante?

Do estágio?

Da pós-graduação?

Provavelmente de todos — mas cada um desempenhando um papel diferente.

A universidade precisa oferecer uma base técnica consistente, oportunidades para desenvolver raciocínio e condições para compreender a amplitude da profissão.

O estudante precisa assumir progressivamente a responsabilidade por aprofundar conhecimentos, experimentar áreas de interesse e desenvolver competências que nenhuma disciplina conseguirá entregar prontas.

E o mercado continuará ensinando aquilo que só pode ser aprendido quando problemas reais aparecem.

Talvez a maior expectativa equivocada seja imaginar que alguém deveria sair da cerimônia de colação de grau completamente pronto.

O diploma encerra a graduação.

A formação profissional está apenas começando.

Esta matéria foi produzida a partir da conversa de Thaís Rocha com Rana Rached no Papo de Veterinária. No episódio completo, a convidada discute formação universitária, mercado de trabalho, inspeção e segurança de alimentos, docência e os desafios enfrentados pelos novos profissionais da Medicina Veterinária.

 

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