Fake news sobre alimentos: por que informação bonita não é necessariamente informação correta
Vídeos bem produzidos, falas convincentes e milhares de seguidores podem transformar informações equivocadas em verdades aparentes. Para a médica-veterinária Rana Rached, combater a desinformação sobre alimentos exige recuperar algo básico: a capacidade de reconhecer fontes confiáveis e compreender quem realmente possui conhecimento sobre o assunto.
Nunca tivemos tanto acesso à informação.
Talvez nunca tenha sido tão difícil decidir em qual informação confiar.
Basta abrir uma rede social para encontrar alguém explicando por que determinado alimento faz mal, outro ensinando como identificar um produto supostamente “mais puro”, alguém denunciando uma prática industrial e, poucos vídeos depois, outra pessoa defendendo exatamente o contrário - tudo em poucos segundos.
Com boa edição, música, imagens atraentes, frases fortes e, frequentemente, uma certeza impressionante.
É justamente essa combinação que preocupa a médica-veterinária Rana Rached, que atua nas áreas de inspeção, qualidade e segurança de alimentos e discutiu o assunto durante sua participação no Papo de Veterinária.
O problema atual não é falta de acesso.
Estar na internet não transforma uma informação em conhecimento
Durante a conversa, Thaís Rocha e Rana Rached discutem uma mudança evidente na maneira como buscamos respostas.
Uma dúvida aparece e imediatamente recorremos à internet.
O problema começa quando a primeira resposta encontrada passa a ser aceita como verdadeira simplesmente porque apareceu primeiro, foi apresentada de maneira convincente ou confirma aquilo em que a pessoa já acreditava.
Uma página pode ter excelente apresentação visual.
No campo dos alimentos, essa diferença importa porque desinformação pode interferir diretamente na maneira como as pessoas escolhem, conservam, preparam e consomem produtos.
Informação bonita também pode estar errada
A estética das redes sociais acrescentou um elemento novo à velha desinformação.
Durante a entrevista, Thaís comenta vídeos produzidos com recursos de inteligência artificial nos quais alimentos ganham voz, personalidade e emoções para defender determinadas ideias.
Visualmente, são conteúdos capazes de prender a atenção.
Um conteúdo pode parecer moderno, sofisticado e confiável enquanto apresenta uma explicação tecnicamente inadequada.
E existe um agravante.
Nas redes sociais, uma ideia simples e radical frequentemente tem mais capacidade de circulação do que uma explicação técnica cheia de condições, exceções e contexto.
A ciência costuma responder:
O vídeo viral prefere:
A segunda frase ganha a disputa pela atenção com alguma facilidade.
Não necessariamente ganha a disputa pela verdade.
Uma credencial profissional também não transforma alguém em especialista em qualquer assunto
Outro exemplo discutido na entrevista envolve profissionais com formação em áreas da saúde produzindo conteúdo sobre temas que extrapolam seu campo de domínio.
Rana relata ter encontrado uma publicação sobre leite em que conceitos diferentes estavam sendo confundidos.
Ao tentar apresentar uma perspectiva baseada na própria área de atuação e até oferecer a possibilidade de conhecer pessoalmente a realidade da produção leiteira, encontrou resistência.
O episódio ilustra um problema importante.
Possuir formação profissional não significa possuir autoridade técnica sobre todos os temas relacionados à saúde, nutrição ou alimentos.
Um título pode transmitir confiança ao público.
Mas ainda é necessário perguntar: aquela pessoa possui conhecimento e experiência especificamente sobre o assunto que está explicando?
Essa pergunta simples já evitaria boa parte das armadilhas.
O problema é maior quando o argumento parece fazer sentido
Fake news completamente absurdas podem ser relativamente fáceis de identificar.
As mais eficientes não funcionam assim.
Elas misturam alguma informação verdadeira, uma conclusão intuitiva e uma interpretação inadequada.
O resultado parece lógico.
Durante a conversa, Rana observa justamente isso: determinados argumentos utilizados nas redes sociais podem soar bastante razoáveis para quem não possui conhecimento suficiente para identificar onde está o problema.
É isso que torna a desinformação tão poderosa.
Ela não precisa parecer absurda.
Precisa apenas parecer plausível.
E, se a mensagem estiver alinhada às convicções anteriores do público, a chance de ser aceita e compartilhada cresce ainda mais.
Quanto mais polêmica, maior a chance de chamar atenção
As redes sociais possuem ainda outra característica discutida no episódio.
Para a plataforma, todas essas ações representam interação.
Assim, uma afirmação alarmista sobre determinado alimento pode gerar muito mais atenção que uma explicação tecnicamente correta, equilibrada e cheia de contexto.
O paradoxo aparece rapidamente:
Para quem trabalha com divulgação científica, isso pode ser frustrante.
Mitos antigos também aprenderam a usar redes sociais
Nem toda desinformação é nova.
Práticas tradicionais, crenças familiares e conceitos antigos sobre alimentos podem sobreviver mesmo depois de anos de explicações técnicas em sentido contrário.
Durante o episódio, Rana cita exemplos que aparecem repetidamente na rotina de quem trabalha com segurança de alimentos.
Outro é o consumo de leite cru associado à ideia de produto mais “natural”.
Também aparece a conhecida regra dos cinco segundos: a crença de que um alimento que cai no chão poderia ser consumido com segurança se recolhido rapidamente.
“Eu sempre fiz assim e nunca passei mal” não é evidência de segurança
Existe ainda um argumento particularmente resistente:
“Eu sempre comi e nunca aconteceu nada.”
Ele parece poderoso porque parte de uma experiência verdadeira.
Durante a entrevista, a própria conversa sobre alimentos tradicionais evidencia essa dificuldade.
O papel do profissional é informar. A escolha final não está sob seu controle
Para quem se dedica à divulgação científica, talvez essa seja uma das partes mais difíceis de aceitar.
Rana relata uma atividade de extensão em que estudantes explicavam determinada informação a consumidores. Depois de ouvir cuidadosamente a explicação, uma pessoa simplesmente respondeu que havia entendido — mas continuaria tomando a mesma decisão de antes.
Não necessariamente houve fracasso da comunicação.
Para profissionais que trabalham com educação em saúde, compreender esse limite talvez seja essencial para não transformar divulgação científica em uma batalha permanente contra cada comentário da internet.
Como reconhecer uma fonte melhor?
A própria conversa oferece pistas úteis.
Quando o assunto envolve legislação, fiscalização ou regras sanitárias, Rana e Thaís chamam atenção para algo elementar: existem órgãos oficiais responsáveis justamente por essas informações.
Da mesma maneira, livros técnicos, bibliografias acadêmicas, artigos científicos e profissionais reconhecidamente vinculados à área específica continuam tendo importância.
A internet não precisa ser rejeitada.
Quem está falando?
A pessoa possui formação ou experiência especificamente naquele tema?
De onde veio a informação?
Existe uma fonte identificável ou apenas uma afirmação?
A fonte original é confiável?
Há um órgão oficial, publicação científica, livro técnico ou instituição responsável sustentando aquilo?
O conteúdo explica ou apenas provoca?
Frases destinadas principalmente a causar medo, indignação ou surpresa merecem atenção redobrada.
A informação está atualizada?
Especialmente quando envolve legislação e regulamentação, conteúdos antigos podem ter deixado de representar as regras vigentes.
O problema também chegou à formação universitária
A discussão não se limita ao consumidor.
Livros extensos, bibliografias e autores de referência passaram a disputar atenção com buscas rápidas na internet e, mais recentemente, ferramentas de inteligência artificial.
Isso não significa que novas tecnologias devam ser abandonadas, pelo contrário.
Perguntar a uma ferramenta é fácil.
E talvez essa seja uma das competências mais importantes para o profissional que será formado nos próximos anos: usar novas tecnologias sem terceirizar para elas o próprio julgamento técnico.
Médicos-veterinários também precisam aprender a comunicar ciência
Existe ainda uma responsabilidade profissional envolvida nessa discussão.
Existe conhecimento técnico que precisa chegar ao consumidor.
Médicos veterinários que atuam com inspeção, segurança de alimentos, saúde pública e áreas relacionadas possuem uma perspectiva que muitas vezes sequer é conhecida pela população.
Explicar por que determinadas práticas representam risco, como funcionam os sistemas de inspeção ou por que um procedimento é utilizado também é uma forma de exercer a profissão.
É preciso aprender a traduzi-lo.
Uma explicação incompreensível pode estar cientificamente correta e ainda assim fracassar completamente como comunicação.
O desafio é disputar atenção sem abandonar a ciência
Esse talvez seja o dilema.
O conteúdo duvidoso pode prometer certezas.
A desinformação pode ser construída para provocar indignação.
Informação correta pode — e deve — ser apresentada de maneira interessante, clara e acessível.
No fim, talvez a regra mais útil seja também uma das mais antigas:
Em uma época na qual qualquer pessoa pode publicar para milhares ou milhões de outras, aprender a reconhecer essa diferença deixou de ser apenas uma habilidade acadêmica.
Esta matéria foi produzida a partir da conversa de Thaís Rocha com Rana Rached no Papo de Veterinária. No episódio completo, a convidada aborda segurança de alimentos, formação profissional, mercado de trabalho, comunicação, docência e os desafios de enfrentar informações equivocadas sobre alimentos.