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Papo de Veterinária
Nov. 6, 2026

Fake news sobre alimentos: por que informação bonita não é necessariamente informação correta

Fake news sobre alimentos: por que informação bonita não é necessariamente informação correta

Vídeos bem produzidos, falas convincentes e milhares de seguidores podem transformar informações equivocadas em verdades aparentes. Para a médica-veterinária Rana Rached, combater a desinformação sobre alimentos exige recuperar algo básico: a capacidade de reconhecer fontes confiáveis e compreender quem realmente possui conhecimento sobre o assunto.

Nunca tivemos tanto acesso à informação.

Talvez nunca tenha sido tão difícil decidir em qual informação confiar.

Basta abrir uma rede social para encontrar alguém explicando por que determinado alimento faz mal, outro ensinando como identificar um produto supostamente “mais puro”, alguém denunciando uma prática industrial e, poucos vídeos depois, outra pessoa defendendo exatamente o contrário - tudo em poucos segundos.

Com boa edição, música, imagens atraentes, frases fortes e, frequentemente, uma certeza impressionante.

É justamente essa combinação que preocupa a médica-veterinária Rana Rached, que atua nas áreas de inspeção, qualidade e segurança de alimentos e discutiu o assunto durante sua participação no Papo de Veterinária.

O problema atual não é falta de acesso. É curadoria.

Estar na internet não transforma uma informação em conhecimento

Durante a conversa, Thaís Rocha e Rana Rached discutem uma mudança evidente na maneira como buscamos respostas.

Uma dúvida aparece e imediatamente recorremos à internet. Isso pode ser extraordinariamente útil.

O problema começa quando a primeira resposta encontrada passa a ser aceita como verdadeira simplesmente porque apareceu primeiro, foi apresentada de maneira convincente ou confirma aquilo em que a pessoa já acreditava.

Uma página pode ter excelente apresentação visual. Um vídeo pode parecer profissional. Uma publicação pode acumular milhares de compartilhamentos. Nada disso, isoladamente, demonstra que a informação apresentada esteja correta.

No campo dos alimentos, essa diferença importa porque desinformação pode interferir diretamente na maneira como as pessoas escolhem, conservam, preparam e consomem produtos.

Informação bonita também pode estar errada

A estética das redes sociais acrescentou um elemento novo à velha desinformação. Não é necessário apenas convencer. É preciso chamar atenção.

Durante a entrevista, Thaís comenta vídeos produzidos com recursos de inteligência artificial nos quais alimentos ganham voz, personalidade e emoções para defender determinadas ideias.

Visualmente, são conteúdos capazes de prender a atenção. O problema aparece quando a qualidade da apresentação passa a funcionar como substituto da qualidade da informação.

Um conteúdo pode parecer moderno, sofisticado e confiável enquanto apresenta uma explicação tecnicamente inadequada.

E existe um agravante.

Nas redes sociais, uma ideia simples e radical frequentemente tem mais capacidade de circulação do que uma explicação técnica cheia de condições, exceções e contexto.

A ciência costuma responder: “depende.”

O vídeo viral prefere: “nunca coma isso.”

A segunda frase ganha a disputa pela atenção com alguma facilidade.

Não necessariamente ganha a disputa pela verdade.

Uma credencial profissional também não transforma alguém em especialista em qualquer assunto

Outro exemplo discutido na entrevista envolve profissionais com formação em áreas da saúde produzindo conteúdo sobre temas que extrapolam seu campo de domínio.

Rana relata ter encontrado uma publicação sobre leite em que conceitos diferentes estavam sendo confundidos.

Ao tentar apresentar uma perspectiva baseada na própria área de atuação e até oferecer a possibilidade de conhecer pessoalmente a realidade da produção leiteira, encontrou resistência.

O episódio ilustra um problema importante.

Possuir formação profissional não significa possuir autoridade técnica sobre todos os temas relacionados à saúde, nutrição ou alimentos.

Um título pode transmitir confiança ao público.

Mas ainda é necessário perguntar: aquela pessoa possui conhecimento e experiência especificamente sobre o assunto que está explicando?

Essa pergunta simples já evitaria boa parte das armadilhas.

O problema é maior quando o argumento parece fazer sentido

Fake news completamente absurdas podem ser relativamente fáceis de identificar.

As mais eficientes não funcionam assim.

Elas misturam alguma informação verdadeira, uma conclusão intuitiva e uma interpretação inadequada.

O resultado parece lógico.

Durante a conversa, Rana observa justamente isso: determinados argumentos utilizados nas redes sociais podem soar bastante razoáveis para quem não possui conhecimento suficiente para identificar onde está o problema.

É isso que torna a desinformação tão poderosa.

Ela não precisa parecer absurda.

Precisa apenas parecer plausível.

E, se a mensagem estiver alinhada às convicções anteriores do público, a chance de ser aceita e compartilhada cresce ainda mais.

Quanto mais polêmica, maior a chance de chamar atenção

As redes sociais possuem ainda outra característica discutida no episódio. Conteúdos extremos provocam reação. Algumas pessoas compartilham porque concordam. Outras comentam para contestar. Outras enviam para alguém apenas para perguntar: “Você viu isso?”

Para a plataforma, todas essas ações representam interação.

Assim, uma afirmação alarmista sobre determinado alimento pode gerar muito mais atenção que uma explicação tecnicamente correta, equilibrada e cheia de contexto.

O paradoxo aparece rapidamente: o conteúdo de melhor qualidade não é necessariamente aquele que alcançará mais pessoas.

Para quem trabalha com divulgação científica, isso pode ser frustrante. Mas abandonar esse espaço deixa o terreno ainda mais livre para conteúdos de baixa qualidade.

Mitos antigos também aprenderam a usar redes sociais

Nem toda desinformação é nova. Algumas ideias atravessam gerações. Mudam apenas de formato.

Práticas tradicionais, crenças familiares e conceitos antigos sobre alimentos podem sobreviver mesmo depois de anos de explicações técnicas em sentido contrário.

Durante o episódio, Rana cita exemplos que aparecem repetidamente na rotina de quem trabalha com segurança de alimentos. Um deles é a preferência por determinados queijos muito furados como se os orifícios fossem necessariamente sinal de uma característica desejável.

Outro é o consumo de leite cru associado à ideia de produto mais “natural”.

Também aparece a conhecida regra dos cinco segundos: a crença de que um alimento que cai no chão poderia ser consumido com segurança se recolhido rapidamente. O humor dessas situações desaparece quando lembramos que segurança de alimentos está relacionada à prevenção de doenças. Microrganismos não participam de nossas tradições. Muito menos contam até cinco.

“Eu sempre fiz assim e nunca passei mal” não é evidência de segurança

Existe ainda um argumento particularmente resistente:

“Eu sempre comi e nunca aconteceu nada.”

Ele parece poderoso porque parte de uma experiência verdadeira. A pessoa realmente consumiu aquele alimento muitas vezes sem perceber qualquer consequência. O problema é transformar uma experiência individual em prova de que determinada prática não apresenta risco.

Durante a entrevista, a própria conversa sobre alimentos tradicionais evidencia essa dificuldade. Informar alguém sobre determinado risco não significa que aquela pessoa modificará o comportamento. Ela pode compreender a explicação e decidir continuar fazendo exatamente o que fazia antes. Essa distinção é importante para quem trabalha com educação sanitária.

O papel do profissional é informar. A escolha final não está sob seu controle

Para quem se dedica à divulgação científica, talvez essa seja uma das partes mais difíceis de aceitar. É possível explicar. Demonstrar. Responder perguntas. Apresentar riscos. Indicar fontes. Nem sempre será possível convencer.

Rana relata uma atividade de extensão em que estudantes explicavam determinada informação a consumidores. Depois de ouvir cuidadosamente a explicação, uma pessoa simplesmente respondeu que havia entendido — mas continuaria tomando a mesma decisão de antes.

Não necessariamente houve fracasso da comunicação. A informação foi entregue. A decisão posterior pertence à pessoa que a recebeu.

Para profissionais que trabalham com educação em saúde, compreender esse limite talvez seja essencial para não transformar divulgação científica em uma batalha permanente contra cada comentário da internet. O dever é proporcionar acesso a informação de qualidade. Não existe botão capaz de obrigar alguém a utilizá-la.

Como reconhecer uma fonte melhor?

A própria conversa oferece pistas úteis. Uma delas é abandonar a ideia de que Google é fonte. Google é uma ferramenta para encontrar fontes. Não é a mesma coisa.

Quando o assunto envolve legislação, fiscalização ou regras sanitárias, Rana e Thaís chamam atenção para algo elementar: existem órgãos oficiais responsáveis justamente por essas informações.

Da mesma maneira, livros técnicos, bibliografias acadêmicas, artigos científicos e profissionais reconhecidamente vinculados à área específica continuam tendo importância.

A internet não precisa ser rejeitada. Precisa ser utilizada melhor. Diante de uma informação sobre alimentos, algumas perguntas ajudam:

Quem está falando?

A pessoa possui formação ou experiência especificamente naquele tema?

De onde veio a informação?

Existe uma fonte identificável ou apenas uma afirmação?

A fonte original é confiável?

Há um órgão oficial, publicação científica, livro técnico ou instituição responsável sustentando aquilo?

O conteúdo explica ou apenas provoca?

Frases destinadas principalmente a causar medo, indignação ou surpresa merecem atenção redobrada.

A informação está atualizada?

Especialmente quando envolve legislação e regulamentação, conteúdos antigos podem ter deixado de representar as regras vigentes. Curadoria não significa desconfiar de tudo, significa aprender a escolher melhor aquilo em que confiamos.

O problema também chegou à formação universitária

A discussão não se limita ao consumidor. Rana relata perceber entre estudantes uma mudança na relação com as fontes tradicionais de conhecimento.

Livros extensos, bibliografias e autores de referência passaram a disputar atenção com buscas rápidas na internet e, mais recentemente, ferramentas de inteligência artificial.

Isso não significa que novas tecnologias devam ser abandonadas, pelo contrário. Elas podem fazer parte da formação. O problema surge quando uma ferramenta de busca ou de inteligência artificial passa a substituir a própria fonte de conhecimento.

Perguntar a uma ferramenta é fácil. Avaliar a resposta continua exigindo formação.

E talvez essa seja uma das competências mais importantes para o profissional que será formado nos próximos anos: usar novas tecnologias sem terceirizar para elas o próprio julgamento técnico.

Médicos-veterinários também precisam aprender a comunicar ciência

Existe ainda uma responsabilidade profissional envolvida nessa discussão. Quando informações falsas sobre alimentos circulam, especialistas da área não deveriam participar apenas das conversas internas das universidades, indústrias e órgãos públicos.

Existe conhecimento técnico que precisa chegar ao consumidor.

Médicos veterinários que atuam com inspeção, segurança de alimentos, saúde pública e áreas relacionadas possuem uma perspectiva que muitas vezes sequer é conhecida pela população.

Explicar por que determinadas práticas representam risco, como funcionam os sistemas de inspeção ou por que um procedimento é utilizado também é uma forma de exercer a profissão. Mas a entrevista mostra que possuir conhecimento técnico não basta.

É preciso aprender a traduzi-lo.

Uma explicação incompreensível pode estar cientificamente correta e ainda assim fracassar completamente como comunicação.

O desafio é disputar atenção sem abandonar a ciência

Esse talvez seja o dilema. Informação falsa costuma ser simples. Informação científica frequentemente é complexa.

O conteúdo duvidoso pode prometer certezas. O conhecimento técnico precisa reconhecer limites. 

A desinformação pode ser construída para provocar indignação. A boa comunicação precisa resistir à tentação de adotar o mesmo caminho apenas para conseguir visualizações. Isso não significa que ciência precise ser chata.

Informação correta pode — e deve — ser apresentada de maneira interessante, clara e acessível. O que não pode acontecer é sacrificar a precisão para aumentar a interação.

No fim, talvez a regra mais útil seja também uma das mais antigas: não confunda confiança com conhecimento. Alguém pode falar com absoluta segurança e continuar absolutamente errado.

Em uma época na qual qualquer pessoa pode publicar para milhares ou milhões de outras, aprender a reconhecer essa diferença deixou de ser apenas uma habilidade acadêmica. Tornou-se uma questão de saúde pública.

Esta matéria foi produzida a partir da conversa de Thaís Rocha com Rana Rached no Papo de Veterinária. No episódio completo, a convidada aborda segurança de alimentos, formação profissional, mercado de trabalho, comunicação, docência e os desafios de enfrentar informações equivocadas sobre alimentos.